RESSACA | HANGOVER + Be Part of Chaos (2016-2019)

Carla Filipe

17.01.2020 – 29.02.2020

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Esta exposição individual de Carla Filipe apresenta novos desenhos da série RESSACA / HANGOVER + Be Part Of Chaos (2016 – 2019), que examina noções de instabilidade e perda de controlo, um estado semelhante ao de ser-se arrastado para o largo por uma poderosa corrente marinha. Nos últimos anos, a artista tem desenvolvido desenhos sobre grandes faixas, que combinam serigrafia, imagens, palavras e graffiti. Nas suas composições, a artista tem aplicado padrões de pavimentos urbanos a fotografias da história do Porto para criar pinturas vibrantes e fortes com uma linguagem gráfica. As imagens são repetidas, justapostas e por vezes mostradas lado a lado, ou sob letras ou tinta, para erigirem camadas imagéticas e abstracção.

Filipe joga com diferentes texturas negras, aplicando sobre elas spray de cores industriais para compor obras abstractas que misturam ritmicamente letras e linhas pulsantes.  A composição desenvolve-se entre presença e ausência, densidade e luz, desenrolando-se na superfície frontal das faixas, mas penetrando também sob essa superfície para gerar imagens parcialmente visíveis no verso. Quanto mais olhamos, mais há para ver.

A artista começou a explorar a serigrafia sobre tela durante a sua residência de 2015 na Rauschenberg Foundation em Captiva Island. Filipe partilha com Rauschenberg a escolha de fotografias de rua e de imprensa. A imagética do trabalho ajuda a gerar uma possibilidade de narrativa que, depois, é sabotada pela adição de gestos pictóricos. Filipe começou a trabalhar com negro sobre tela branca para construir uma linguagem visual capaz de registar as texturas das ruas do Porto. A série Be Part Of Chaos foi produzida e mostrada durante uma residência em Viena (2017). As faixas cosem as diferentes “peles” das ruas daquela cidade para representar os seus estratos históricos. Em Viena, a artista experimentou com impressões transferidas directamente para a tela a partir do pavimento urbano, descascando a sua sujidade e cicatrizes numa tentativa de captar a essência da cidade. A composição integra imagens coloridas a tinta fluorescente industrial básica  – azul, verde, laranja e amarelo – com títulos de obras de grande dimensão que se espalham sobre a tela: J We Will Never Be Safe (2017) e Identity Is Not Inherited, It Is Voted (2017). Estas frases são referências directas a conceito de “modernidade líquida” do sociólogo Zygmunt Bauman, no qual insegurança, incerteza e individualismo constituem elementos dominantes.

Filipe baseou sempre os seus trabalhos nos aspectos históricos, biográficos e sociais do seu Porto natal (e de Portugal), trazendo à luz os desenvolvimentos e movimentos políticos dos séculos dezanove e vinte. O seu estúdio tem sido a rua.  A nova série RESSACA / HANGOVER é constituída por impressões tiradas directamente do pavimento urbano do Porto, que são depois combinadas com imagens da história política da cidade e linguagem gráfica apropriada das ruas. A artista desenha linhas que criam caos e confusão, mas usa também letras para exprimir a vacuidade do discurso. A sua linguagem é directa, fracturada, intensa e repetitiva.

Suspensas do tecto até ao chão, estas faixas formam uma paisagem urbana de edifícios-cartaz no espaço da galeria. A sua dimensão monumental propõe uma arqueologia do presente e lança um horizonte de questões sobre o futuro, expondo as raízes e efeitos de uma sociedade urbana desligada da realidade. Filipe distancia-se do optimismo político, gerando consciência sem mapear um futuro.

Carolina Grau, Janeiro 2020