HANDLE WITH CARE

curadoria de Ana Cristina Cachola

Gabriel Abrantes | Vasco Araújo | Carla Filipe | Karlos Gil | Evy Jokhova | David Maljkovic | Ursula Mayer | Adrien Missika | Rivane Neuenschwander | Diana Policarpo | Alice dos Reis | Von Calhau! | Emily Wardill | Lawrence Weiner | Yonamine

04.12.2021 – 12.02.2021

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Cuidar: uma acção radical no presente

Será leviano, e mesmo perigoso, não se fazer já uma séria e minuciosa genealogia do cuidado e do cuidar. As práticas associadas a este sujeito, adjectivo e predicado são, certamente, um dos instrumentos mais valiosos para se agir no contemporâneo. A arte já o pressentiu e tem trazido, não poucas vezes, à discussão o tema através de estratégias diferenciadas que passam por: re-visibilizar modos de cuidar ancestrais que, através dos tempos, têm vindo a ser (irresponsavelmente) obliteradas por estruturas de poder de autocracia discursiva; criar condições de (sobre)vivência e convivialidade da fauna e da flora, fazendo da colaboração inter-espécies a constante do pensar e do agir; reconhecer o auto-cuidado enquanto forma essencial do estar; reparar dinâmicas de invisibilização que têm desleixado comunidades e fazeres, matérias e materiais que, assim, se excluem da cartografia do mundo; preservar a diversidade sígnica – palavras, imagens, sons – esquecidos e substituídos pela normatividade de um capitalismo de largo espectro que afecta o económico, o social, o cultural, o ambiental, o científico e o tecnológico.

Handle with Care não pretende ser essa genealogia, mas contribuir para que ela se produza e se estabeleça através da convocação artística de todas as estratégias apresentadas supra. Ao mesmo tempo, problematiza a contemporaneidade enquanto era de intermitências, de surgimentos e desaparecimentos súbitos. Da obsolescência tecnológica quase imediata, à recuperação de práticas e formas ancestrais, o cuidado enquanto metodologia (também artística) impõe-se como acção que possibilita transformar o intermitente em simultâneo, o invisível em co-visível. Reconhecer a fragilidade do mundo, dos seus lugares e dos seres que o habitam é o lugar primeiro da predisposição cuidadora.

Carla Filipe recorda-nos, em forma e conteúdo, como as cidades são frágeis, sendo essa asserção um chamamento a cuidá-las. Esse chamamento ecoa em todas as obras presentes na exposição que recordam e problematizam o cuidado do corpo e da alma (Alice dos Reis, Diana Policarpo e Karlos Gil), da natureza e do natural (Adrien Missika, David Maljkovic, Rivane Neuenschwander e Ursula Mayer ) de tropos culturais como o riso (Vasco Araújo), a palavra (Lawrence Weiner), a imagética improvável (Gabriel Abrantes e Von Calhau!) e o fazer manual (Evy Jokhova), das dinâmicas de visibilidade e invisibilidade (Emily Wardill e Yonamine). Claro que as obras presentes nesta exposição acumulam significados outros e se expandem em complexidade crítica, mas têm em comum a disposição empática que possibilitará futuro. As torres plantadas, que compõem Jardin d’Hiver, de Adrien Missika, são prova disso e serão, no final da exposição, transladadas para o espaço exterior da galeria, para que cresçam em contacto com os vários elementos.

Handle with Care insinua-se como mantra para a longevidade e a sobrevivência benigna. O cuidado é (e tem de ser) transversal à acção humana, sob pena do tempo destruir o espaço físico, afectivo e imaginado. Cuidar é, pois, acção política e, enquanto acção política, não deixa de (ainda) ser radical.

Ana Cristina Cachola
Dezembro de 2021