SERENDIPITY ou a arte de interpretar os sinais

com curadoria de María Inés Rodríguez

14.09.2019 – 20.12.2019

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Rosa Barba | Cecilia Bengolea | Carolina Caycedo | Luísa Cunha | María Angélica Medina |
Adrien Missika | Felipe Ribon e o telepaticamente presente Zak Kyes

 

Esta exposição situa-se no ponto X de uma história, na intersecção de vários caminhos onde, seguindo a ideia de “acaso” (orig. serendipity), se cruzam artistas com quem partilhei nos últimos anos conversas, projetos, momentos de vida e de reflexão.

O termo “serendipity” é um neologismo inglês que não encontra equivalente noutra língua. Cunhado por Horace Walpole em 1754, o termo tem a sua origem no livro “The Travels and Adventures of Three Princes of Serendip” (trad. “Viagens e Aventuras dos Três Príncipes de Serendip”), tradução de um antigo conto persa publicado em Inglaterra em 1722. Nesta história, os três príncipes filhos de Jafer, rei-filósofo da Ilha de Serendip (original persa-arábico para Sri-Lanka), são enviados pelo pai numa viagem para continuarem os seus estudos, adquirirem novas experiências e conhecerem as tradições e costumes de outros povos. Esta viagem iniciática é o ponto de partida para uma série de aventuras, durante as quais o poder de observação e o engenho dos príncipes os conduzem a várias descobertas. Diferentes versões deste conto antigo circularam entre a Índia e o Médio Oriente antes de chegarem à Europa, onde a história alcançou grande sucesso. Foi traduzido, adaptado e reescrito para italiano e alemão no século XVI, e para francês, inglês, holandês e dinamarquês no século XVIII. A primeira versão, “Peregrinaggio di tre giovani figliuoli del re di Serendippo”, foi publicada por Michele Tramezzino em Veneza em 1557, depois de este ter ouvido o conto através de Cristoforo Armeno, autor italiano que o havia traduzido do persa numa adaptação do “Livro Um de Hasht-Bihisht”, coleção de poemas de Amir Khusrau publicado em 1302.

Todas as histórias têm um princípio, um meio e um fim, e, dependendo do ponto onde nos situamos e da maneira como vamos interpretando e analisando os diferentes “sinais”, podemos dar-lhes um ou outro rumo. Nesse processo de construção, somos frequentemente confrontados com negociações e decisões, muitas das quais determinadas pela complexidade social, política, económica, cultural e ecológica do contexto em que vivemos. Os diferentes modos e significados que a vida individual e coletiva adquire têm impacto a médio e longo-prazo na “vida” daquele a que chamamos o nosso planeta, e por isso no nosso futuro.

A Arte interroga-nos muitas vezes sobre esse futuro, interpelando-nos e tornando visíveis diferentes formas de acção, ou de in-acção, que nos permitem compreender e questionar o papel que desempenhamos e o percurso que tomamos.

À semelhança da história de peregrinação dos três príncipes de Serendip – que os convido a ler -, esta exposição segue as pistas e os sinais de um grupo de artistas que através de fotografia, de escultura, de desenho, de filme ou de instalação partilham interesses que evocam movimentos de resistência, representação social, processos de investigação, e redes de solidariedade do mundo contemporâneo.

Esta exposição é dedicada às mulheres e homens que defendem os rios, os mares e os oceanos, ponto de encontro de todos os artistas presentes nesta exposição.

MIR, Setembro 2019