PINTURAS ARRANCADAS À NOITE

Marta Soares

29.11.2018 – 9.01.2019

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A noite arrancada à pintura

1. A entrada sobre a Noite de Roland Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso tem como título “E a Noite Iluminava a Noite”.

2. As três palavras que formam o título desta exposição – Pinturas Arrancadas à Noite – constituem em tríade a ontologia das obras apresentadas. São sem dúvida pinturas, embora as acções que conduzem à sua efectivação detenham um carácter eminentemente performativo que não coloca, contudo, em causa o seu estatuto medial. Estas pinturas – ou, pelo menos, as telas que lhes dão origem – são realmente arrancadas às paredes em que a artista as coloca, não sem antes agir sobre elas e sobre as paredes que as recebem. Apesar de toda esta sucessão de acções se prolongar durante tempos diferenciados, é à noite – nesse tempo de transgressão – que Marta Soares as arranca das paredes.

Todo o trabalho é transgressivo. Em primeiro lugar, a artista faz uso de paredes exteriores no espaço público, apropriando-se de intervenções anteriores, muitas delas praticamente invisíveis e quase sempre apócrifas (a não ser no caso dos tags). O arrancar das telas acontece maioritariamente à noite, oculto de olhares alheios. A própria metodologia é estranha à tradição pictórica de um modo comum de pintar, presente no imaginário colectivo.

Todo o processo é complexo e responde a uma intuição pictórica que tem origem no exercício de olhar para uma imagética vernácula omnipresente: as paredes que podem ser vistas por qualquer pessoa que caminhe pela rua e todas as camadas de informação visual que acumulam. Existe, pois, a consciência de um palimpsesto muitas vezes invisível pela sua hipervisibilidade quotidiana. Ao mesmo tempo, reconhece-se neste processo a matriz de funcionamento da cultura visual: a acumulação, o encobrimento, a sucessão, o desvendar, o acrescentar de imagens e outra informação sígnica.

Contudo, não se procede, na obra de Marta Soares, a uma análise ou desencriptação destas dinâmicas operadas pelas imagens e sobre as imagens; estas são recolhidas, arrancadas, e guiadas sem esquecer que o regime visual tem vontade própria; que há discussões que só acontecem dentro da esfera imagética. Por isso, o processo – ou pelo menos parte dele – permanecerá sempre obscuro, numa obscuridade que Roland Barthes associa à noite. A artista arranca a noite à pintura: a noite boa e a noite má; a noite que acontece sempre; a noite que é trabalho; a noite que é luz; a noite que é olhar.

A noite cresce nestas pinturas. É assim quando aquilo que se acrescenta é sempre alguma coisa que se arranca quando aquilo que se arranca é sempre alguma coisa que se acrescenta. As pinturas de Marta Soares são uma noite em que se está acordada.

Ana Cristina Cachola
Novembro de 2018