MATERIAL LONGEVITIES

Tris Vonna-Michell

10.05.2018 – 28.07.2018

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Quando comecei a planear a exposição Material Longevities, imaginei um espaço no qual várias instalações coexistiriam na galeria. O meu objectivo era que a constelação de trabalhos partilhasse a sobreposição dos planos de projecção a nível acústico, espacial e temporal. O ponto de partida para Material Longevities enquanto exposição (recentemente usei o título para outros fins) foi o de reunir trabalhos que remetessem para a minha relação com a tecnologia, narrativa e longevidade. Deste modo, o espaço é ocupado por uma estrutura central de display que contém e, ao mesmo tempo, separa várias peças, em particular as duas instalações de filme Smoke & Mirrors (2018) e Chopin (2018).

A envolver as duas instalações na primeira sala encontra-se a instalação aquática Vessel: Yorktown Express, constituída por impressões com texto e imagem e por um conjunto de lentes de projecção de slides. Esta peça acompanha a instalação do filme Smoke & Mirrors que é, aliás, uma metáfora, oriunda dos espectáculos de fantasmagoria dos séculos XVIII e XIX, para uma explicação ou descrição enganadora, fraudulenta ou insatisfatória. Em Smoke & Mirrors a narrativa anda à volta de projecções, óptica, fidelidade e de uma tentativa para a preservação da tecnologia de slides. Em quase todos os meus trabalhos está implícita uma frágil longevidade: desde performances ao vivo a constelações sensíveis ao espaço, projecções foto-químicas ou instalações aquáticas. Durante um período da montagem de uma exposição em Los Angeles, em 2010, tive a oportunidade, supostamente incrível, de comprar uma grande quantidade de objectos relacionados com slides e peças de exposição. Nessa altura, acreditei que se tratava de um acto de preservação e um bom investimento, mas acabou por não ser nem uma coisa nem outra. As impressões de texto e imagem relatam a transacção num misto de sistema de troca, jargão alfandegário e imagens da documentação do descarregamento do contentor de mercadoria de seis metros. Praticamente todas as cerca de trezentas lentes estavam foscas ou cheias de fungos, mas, apesar das muitas tentativas em integrá-las numa nova instalação de slides, só projectavam imagens como uma sucessão de manchas opacas. Aparentemente, tinha havido um incêndio no armazém onde as lentes estavam guardadas durante os motins de 1992 em Los Angeles, e devido ao calor intenso e aos posteriores estragos provocados pela água acabaram por se tornar placas de petri baças. Um conjunto de lentes acabou, eventualmente, por se tornar nas armações para o display aquático em Vessel: Yorktown Express.

Na estrutura central encontra-se instalada uma nova versão da montagem de impressões Perforations (Wasteful Illuminations). Tem origem numa viagem que fiz ao Japão quando era adolescente e da qual não resultaram quaisquer imagens ou sons, devido a uma avaria na câmara e à incompatibilidade de um aparelho de gravação. Anos mais tarde voltei ao Japão para re-fotografar os locais que me lembrava de ter conhecido e fiz gravações de campo nos ambientes onde as fotografias foram tiradas. A maior parte das imagens e gravações permaneceu de certo modo perdida ou colocada em caixas e discos externos até produzir Perforations I (Wasteful Illuminations) em 2015. A montagem foi concebida como uma pauta visual para o filme Register (2016), que mais tarde veio a tornar-se o catalisador para o filme Smoke & Mirrors, em 2017.

O filme Smoke & Mirrors começa com uma reflexão sobre os conceitos de artificialidade e utilizações obsoletas de tecnologia, nomeadamente para efeitos especiais, parques de diversões e dioramas. A minha primeira experiência com uma câmara foi quando fotografei vestígios submersos do parque de diversões Never Never Land em Southend-on-Sea (que se afundou no estuário pouco depois da minha visita). Depois desta passagem, existem imagens da minha performance num estúdio de gravação improvisado. Filmado numa sauna situada numa cave, quis capturar uma espécie de permanente transformação em contentores, compartimentos e no movimento. Fiz dois takes. Cada take tinha de durar menos de 10 minutos, uma vez que só tínhamos 120 metros de película de 16mm. Desempenhei as narrativas pré-estabelecidas dentro do tempo previsto, tal como costumava fazê-lo nas minhas performances entre 2005-2014, com um temporizador em forma de ovo e para um público ao vivo. Dei instruções ao operador de câmara para se focar sobretudo nas minhas mãos.
A performance era composta por várias narrativas interligadas sobre a minha relação com os aparelhos de gravação e projecção e ambientes específicos: compartimentos, dioramas, aquários e os espaços onde são colocados, como parques de diversões e não-lugares.

A instalação de filme e slides Chopin (2018), que é apresentada dentro da estrutura principal na primeira sala, é a mais recente reconfiguração da minha pesquisa sobre o poeta sonoro e concretista francês Henri Chopin (1922-2008). Entre as décadas de 1950 e 1970, Chopin criou um vasto corpo de gravações pioneiras da voz humana manipulada, utilizando gravadores de som e tecnologias de estúdio. A projecção do filme e a instalação de slides é uma forma de documentação expandida. Reúne diversos artefactos documentais das minhas performances e instalações em curso intituladas Finding Chopin, em que tenho trabalhado desde 2005. O impulso que motivou a combinação destas formas de documentação nesta nova instalação de filme e slides veio de uma necessidade de capturar e criar uma linha temporal para os fios soltos de Finding Chopin.

A segunda sala encontra-se ocupada pela instalação de mesa Punctuation (3:54) e pelo filme Punctuations & Perforations. Punctuation (3:54) é uma instalação de mesa que consiste numa impressão de grandes dimensões. Trata-se de uma montagem: um retrato do meu estúdio com todos os aparelhos de arquivo e instrumentos para medição e construção das minhas peças reunidos num momento encenado, uma natureza-morta. O título refere-se ao relógio, à omnipresença e urgência do tempo no meu trabalho, bem como o tempo preciso retratado na captura da imagem (3:54). Mas também pontuação, no sentido de um momento de transição e pausa no meu processo de produção e de arquivo. Utilizando uma câmara artesanal de grande formato (modificada com um sensor digital), criei cerca de uma dúzia de fotografias navegando sobre uma só parede do meu estúdio no sentido dos ponteiros do relógio. A imagem final foi criada através de um processo de retalhos que foram depois ligados em pós-produção.

O filme Punctuations & Perforations é filmado em 16mm mas projectado digitalmente. Trata-se de um filme documental ficcionado que observa o processo de duplicação de slides num laboratório de fotografia. O filme parafraseia os passos necessários para a duplicação e o processamento de slides. Ao longo da última década tem havido uma mudança no que diz respeito a certos tipos de produção, de uma escala industrial para algo da ordem do hobby e de uma escala amadora (numa pequena cabana, por exemplo). O protagonista do filme encarna alguém que faz um trabalho altamente qualificado e que é agora muito menos procurado. A duplicação de slides sempre foi o elemento mais intangível dentro do meu processo de produção de exposições. O acto de duplicar, copiar, replicar é um pré-requisito do digital. No entanto, fazê-lo de modo analógico tornou-se agora não apenas raro, como um acto anacrónico. O filme Punctuations & Perforations encerra os processos circulares e os trabalhos e estruturas liminares de tal empreendimento. A instalação de filme foi pensada como uma nota final para a exposição, ou talvez, mais especificamente, uma nota final para esta constelação de longevidades materiais frágeis, mas que são, todavia, duradouras.

Tris Vonna-Michell
Material Longevities
Maio, 2018