GAZE DITHERING

David Maljković

04.05.2019 – 27.07.2019

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Ao falar da sua prática artística, David Maljković refere-se frequentemente a uma mutação inerente às obras: obras que se alimentam de si próprias para emergirem renovadas. Gaze Dithering, na Galeria Francisco Fino, regressa a esta prática de usar obras anteriores como matéria prima e à interdependência desta aboardagem e de uma reflexão sobre a dissolução de hierarquias entre obras e meios específicos. No seu rocesso exploratório dos procedimentos de construção da imagem, assim como dos procedimentos de coreografar e mediar a experiência expositiva, o trabalho de Maljković recorre a instalações construídas segundo um intricado processo de sobreposição, transformação e reinterpretação de obras recolhidas de diferentes momentos da sua trajectória.

Gaze Dithering propõe-se a acolher múltiplas leituras da obra de Maljković, ao mesmo tempo que se afasta deliberadamente da descrição narrativa e apresenta a sua prática à medida que esta evolui e se transforma. Existe, aqui, uma serialidade das/nas obras apresentadas, assim como uma serialidade gestual que relevam ambas um conjunto de interesses e métodos chave – uma preocupação formal e conceptual com as complexidades do tempo; uma abordagem colagista; auto-referencialidade; a utilização de obras anteriores e dispositivos de apresentação como materiais; uma pesquisa sobre a relação entre a autonomia da arte e os seus desenvolvimentos formais; e um investimento na exploração da natureza do olhar.

Tomando o espaço da galeria, três papéis de parede são transformados em pinturas de parede através do forte gesto pictórico sobre uma superfície, e que altera o que devia ser um simples procedimento de colagem na parede. A image-superfície, ao mesmo tempo indistinta e directa na sua simplicidade, recorda-nos uma imagem de teste, um eventual trabalho em construção, garantindo, assim, o protagonismo do gesto performativo. A mistura de cola e pigmentos extravasa os limites da superfície e alastra sobre os plintos, evidenciando o carácter precário e a fragilidade destes trabalhos.

Na série “Alterity Line”, conjunto de obras obras recentes, Maljković apresenta pinturas e fotografias montadas em alumínio e gravadas com motivos de uma série anterioe de desenhos. A imediatez do desenho destabiliza o meio pictórico, negando assim o carácter autónomo de ambas as obras nos objectos híbridos que são apresentados. A série de animações em loop, com o mesmo título, baseia-se igualmente nesta transformação de desenhos anteriores. Estes trabalhos, permeados por cores intermitentes, tornam-se uma instância de moderação poética e uma chave oculta de entrada na exposição.

Uma outra série de obras, “Yet to be titled”, surge da colocação de trabalhos anteriores enrolados e colocados em caixas seladas de acrílico, cujo formato é tomado directamente de empréstimo ao cartuxo das impressoras de jacto de tinta. A forma daquela ferramenta técnica desprovida de arte é incorporada na obra tornando-se, simultaneamente, uma caixa expositora iluminada e um espaço de questionamento e encapsulamento. Num dos trabalhos desta mesma série, uma caixa de cartão, provavelmente para transporte de uma obra, transforma-se em obra-final, combinando o quotidiano do trabalho no atelier e as operações de bastidores do processo de contrução de uma exposição, e trazendo-os para o interior da experiência expositiva. O método do artista, transformado em conteúdo e arranjo expositivos, estrutura-se em torno de uma tensão entre uma abordagem intimista, que tenta transmitir uma imediatez do processo artístico – ou seja, uma ausência de intermediação entre conteúdo e execução – e a dramaturgia cuidadosamente estruturada da exposição.

Nesta exposição, a relação ambígua e aberta de Maljković com a obra acabada constitui um desafio aos discursos de desenvolvimento e novidade, investigando antes a alteridade, variância e inconsistência enquanto princípios condutores.