END USER

Mariana Silva

22.03.2019 – 18.04.2019

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“Não estou interessada em terapia de grupo como performance, mas continuo interessada em performance. […] Que se foda, talvez.”
—Yvonne Rainer, catálogo da exposição Information (1970)

“O conteúdo do meu trabalho é a estratégia empregue para me certificar que não existe outro conteúdo para além da estratégia.”
—Keith Arnatt, catálogo da exposição Information (1970)

Na exposição virtual Explore, Experience, Enjoy (2013-2015) um texto de parede aparece fugazmente em vídeo. Nele, pode ler-se:

O início do século XXI viu a noite longa dos museus estender-se pelo mundo. Estas eram as noites dos desempregados e dos provisórios, povoadas por imagens de arte e cultura definidas como bem comum usado como tábua de salvação para as economias deprimidas dos chamados países desenvolvidos. À cultura pedia-se que atuasse no espaço especulativo entre propriedade intelectual, ideais de acesso

A instalação vídeo de dois canais foi realizada em 2013 como resposta à crise financeira que afetou Portugal e motivou a minha emigração para os Estados Unidos. End User foca-se no que ficou apenas implícito no trabalho incluído na exposição inicial, Environments, em co-autoria com Pedro Neves Marques, no espaço e-flux em Nova Iorque, em 2013. Na altura, Explore, Experience, Enjoy constituiu um apontamento daquilo que me parecia ser o centro de um furacão, o centro da crise económica cujos estilhaços, ativos tóxicos, e dívidas lançavam o caos em Lisboa. Tão inesperado como a queda do Muro de Berlim para a geração dos meus pais, o fim da União Europeia como a conhecíamos foi discutido por todos, dos telejornais às caixas dos supermercados—discussão que, desde 2012, sigo à distancia, do outro lado do Atlântico.

Voltar a esta instalação seis anos depois, significa desdobrar alguns dos seus elementos, tanto no que diz respeito ao período que passou desde a sua primeira apresentação como no significa mostrá-la em Lisboa. Através de algumas referências históricas, Environments focava-se na década de 1970 e no início da viragem económica neoliberal e financeira. Apesar de representar o início do ambientalismo e o questionamento dos limites da extração de recursos, este período ajudou ainda a estabelecer uma ligação coesa entre dados, estatística, e previsões económicas que provavelmente sobreviverão como elementos constituintes da tecnocracia às economias de carbono que ainda hoje subsistem. Explore, Experience, Enjoy foca a propagação da Arte Conceptual, enquanto história paralela a esta viragem neoliberal e financeira. A exposição virtual apropria a planta da exposição seminal Information (1970); trabalhos da exposição original são substituídos por outros objetos feitos em colaboração com o animador João Cáceres Costa.

A Arte Conceptual, na sua leveza e portabilidade, e tal como era referida pelo curador Kynaston McShine no catálogo da exposição, prometia uma circulação do objeto de arte até reservada apenas à mail art. Prometia, ainda, uma representação global do mundo da arte—evidenciada pelo facto de a exposição apresentar artistas conceptuais da América Latina. O fluxo global de informação tornou-se, desde então, central à contemporaneidade, com a arte a assumir-se progressivamente como um bem ativo, entre outros, viajando sem o atrito experienciado por aqueles que a fabricam ou a veem. End User relaciona uma exposição como Information com a arte tal como circula hoje em dia. Para lá de um discurso académico, a exposição assume a porosidade e a contaminação da economia, de bolhas especulativas, de desmaterialização e do digital. É como se, no seu desdobramento histórico, as fronteiras entre estes fenómenos se tornassem definitivamente inseparáveis.

A questão aqui não é tanto definir a origem ou a natureza da influência entre neoliberalismo e arte conceptual ou vice-versa. É antes questionar se o ênfase no conceptual em arte conceptual ofuscou o papel que o então emergente conceito de informação desempenhou na desmaterialização do objeto de arte: “a informação separou-se de bens sólidos como a pedra ou o papiro.”. (1) Pode um termo como informação ter sido um agente duplo entre a arte contemporânea e esta sociedade em mudança? Damos à ideia de informação a importância devida? O que acontece quando o fazemos?

End User desenvolve Explore, Experience, Enjoy para lá do seu enquadramento, tornando disponíveis cinco dos modelos gerados por computador (o meu trabalho, tal como outros trabalhos digitais, é maioritariamente distribuído por transferência de ficheiros ou pens USB). Disponibilizando estes modelos gerados por computador como múltiplos, inicia-se um diálogo com uma outra característica dos anos 1960 e 70: a utilização de múltiplos e de publicações como suporte para a obra de arte. Nestas, o conceito de informação, e a possibilidade de uma sua circulação acelerada, era também estrutural (2). Na segunda sala da galeria, transfiro para mobiliário de exposição a portabilidade do mobiliário insuflável doméstico e a sua utopia, tal como evocado na coleção Aerospace do designer Quasar Khanh. Por fim, a ligação especulativa entre uma exposição como Information e o mundo global da arte hoje, descrito acima, é contextualizado através de uma série de painéis impressos a UV.

Desde 2013 muitas coisas mudaram: Kynaston McShine e Quasar Khanh morreram; e os documentos que usei para reconstruir a planta de Information com a assistência da bibliotecária do MoMA estão agora disponíveis online; desde a crise financeira e da UE, também Lisboa importou uma versão da fórmula de gentrificação de que Nova Iorque foi caso-teste na década de 1970 quando a dívida da cidade foi resgatada (3). Para regressar ao texto de parede:

Algumas instituições foram lentamente reconhecidas como possuindo também estados psicológicos. Enquanto se desdobrava a natureza híbrida dos seus objetos, a sua deslocação no interior das exposições foi reconhecida como o início de todas as frases museológicas. Esta deslocação tornou-se um artefacto histórico em si. Definiu o que representar significa, espoletando a violência das teorias da

No entanto, o que não mudou desde 2013 é também significativo. Assim como noutros países em dívida, a agora dominante noção de uma classe precária foi central aos protestos anti-austeridade de 2011 em Lisboa. O rendimento básico universal—referido num mural em Explore, Experience, Enjoy—tem reemergido como ideia, uma e outra vez, à esquerda e à direita do espetro político. Em oposição ao conceito tech de “user experience,” quem ou o quê é o utilizador final (end user) destas formas de especulação no interior e exterior de um museu? Qual a cadeia de circulação e consumo a que nos referimos e onde pára? A quem serve e onde acaba?

 

 

 

 

 

(1) McLuhan, Understanding Media, 89. Citado em Ursula Anna Frohne “Art In-Formation: American Art under the Impact of New Media Culture” American Art, Vol. 27, No. 2 (Verão 2013), 38-43. McLuhan foi um teórico importante tanto para McShine como para Lucy Lippard.

(2) “Com um mundo da arte que sabe mais rapidamente sobre trabalho recente, através de reproduções e a disseminação de informação através de periódicos, um mundo alterado pela televisão, filmes, satélites, assim como o avião a jato, é agora possível aos artistas ser verdadeiramente internacional; trocar ideias com os seus colegas é agora comparativamente mais simples.” Kynaston L. McShine, “Essay,” in Information, ed. McShine (Nova Iorque: Museum of Modern Art, 1970), 140.

(3) No entanto, é preciso relevar que estas narrativas englobem as especificidades locais de cada cidade. No caso de Lisboa, a gentrificação foi fortemente impulsionada pela alteração da lei das rendas que aconteceu em 2012, mais do que pela capitalização do papel da cultura e das artes, como aconteceu, por exemplo, em Nova Iorque.