COME TO DUST

Karlos Gil

12.09.2020 – 31.10.2020

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Veneno

O nevoeiro como espaço a um só tempo físico e mental, um campo imaginário onde animais, humanos e monstros coexistem em meio a uma atmosfera que oferece densidade, risco e beleza.

Neste projeto, a ideia de nevoeiro conforma um plano ficcional, um território ainda por explorar e compreender, cujos mistérios se apresentam como alternativa ao léxico científico; a névoa como antídoto epistemológico às narrativas previamente produzidas e já conhecidas – um portal de acesso a outro mundo, e às suas dimensões míticas ou fantásticas. Neste sentido, aquilo que para a ciência está no campo da descoberta, encontra-se para a arte na esfera da invenção.

Karlos Gil busca no encontro entre natureza, cultura e tecnologia (na segunda natureza, portanto) a chave poética para um manancial de dúvidas e ficções um pouco mais além das narrativas e do conhecimento ocidentais. Neste sentido, a polêmica figura do explorador se transmuta na do artista, cuja experiência no reino do desconhecido prescinde das ferramentas de destruição, uma vez que converte a própria ideia de destruição num ato de reformulação da realidade, movido pela potência dos instintos, da alteridade e da curiosidade. Em vez de uma selva, um bosque enevoado, onde mutações ocorrem não apenas na paisagem visível e nos seres animados, mas sobretudo nos processo mentais que fazem emergir as quimeras.

Entre a obscuridade da noite e a extrema visibilidade do dia, os monstros silenciosamente regressam aos seus domínios, à zona pantanosa do sono e dos sonhos, ainda que os rastros deixados sob a neblina de nossa consciência sirvam como índices dos câmbios em nossa percepção da vida, do outro e da morte do mundo tal qual o conhecíamos. A névoa como assombro e transformação.

***

Lisboa, um ano qualquer no futuro.

Diante do reflexo em uma vitrine bisoté, encimada por duas serpentes, tardei uns instantes a procurar uma marca, um sinal, uma ruga que fosse, do homem que um dia havia sido, ou o que dele havia restado; meu semblante espelhado naquela superfície luminosa – à qual se sobrepunham os feéricos anúncios de beleza da farmácia – não parecia dar pistas do passado que eu buscava ocultar com o ímpeto de quem elimina a testemunha de um assassinato à luz do dia. De resto, conforme sempre sucedia ao final dessas alentadas especulações vis-à-vis minha própria imagem, indagava-me, incrédulo, se acaso teria alcançado a irremediável ambição de apagar-me de vez da face da terra.

Dediquei-me a este projeto com tamanho ímpeto que me restavam não mais que umas poucas lembranças dos anos anteriores a meu progressivo desaparecimento, por assim dizer. Movido, entretanto, pela urgência em conceder nova identidade ao ente que se ia – moribundo –, de garantir-lhe renovadas alma, vida e futuro, acabei por amargar os efeitos de meu próprio veneno, substância essa que de há muito me vinha administrando com dedicação absoluta a um plano solerte e insidioso.

Aplicava camadas espessas da emulsão à minha face dia após dia, pela manhã e à noite, numa rotina calculada, step by step, como se um dândi fosse, impaciente, preparando-se para sua derradeira aparição pública – o que no meu caso, vale dizer, significava coisa completamente outra: uma gradual e perversa desaparição. A substância peçonhenta, embora de efeitos milagrosos sobre minha pele, tinha origem no extremo Oriente, e sua compra me demandava mergulhos sempre mais frequentes nas profundezas de uma dark web tão vertiginosa quanto excitante.

Quem sabe fosse o processo de morte lenta e profunda, mas não o seu devido fim, o verdadeiro algoz de meus mais recônditos desejos? Talvez fosse o próprio medo de uma morte sem volta, e da total aniquilação da vida pregressa, a centelha seminal desta investida contra o tempo, contra a memória, contra tudo e todos com os quais um dia convivera.

Postas de lado as aspirações divinas a suprimir uma história para tão-logo engendrar outra, seguro me havia convertido em verdadeiro monstro, numa espécie de anomalia. As deambulações noturnas que promovia sem muito contemplar fatalmente me conduziam aos labirintos do sexo e do corpo alheio, aos estertores de um mundo onde, às duras penas, subsistia um rebotalho sem passado, nem futuro. Marginais, proxenetas, prestidigitadores, autômatos e farsantes de todas as estirpes eram por mim alçados à vida, trazidos à baila, ao passo em que se perdiam e esfumavam em minha memória tal qual uma procissão veloz e inebriante de sombras. Como num jogo de espelhos, adquiriam formas as mais estranhas, ora humanos, ora animais, ora robôs; medusas de um tempo morto, pós-humano, de um destino perdido e sem volta.

Bernardo José de Souza